“Vendi biquínis plus size para ter uma renda extra e hoje faço o maior evento de moda plus size do mundo”

Nascida e criada em Santos, no litoral paulista, a jornalista e DJ Flávia Durante, 41 anos, sempre gostou de praia. Com o passar dos anos, foi engordando, mas nunca deixou de fazer nada de que gostasse por causa de seu corpo. Um certo dia, começou a vender biquínis plus size, já que suas amigas sempre elogiavam os modelos que ela usava. Deu tão certo que ela fez um bazar. Nascia ali o Pop Plus, hoje o maior evento de moda plus size do mundo
Flávia Durante comanda o maior evento de moda plus size do país (Foto: Divulgação/ Ana Shiokawa )

Desde que me tornei adulta, sempre fui grandona: tenho 1,73m. Vestia tamanho 42 e sempre estava ali com uns 80 kg. Não era gorda, mas nunca vesti 36. Em 2001, com uns 25 anos, comecei a engordar. Ao longo de dez anos, eu ganhei cerca de 40 quilos. Não foi de uma hora para outra. Eu sou de Santos, onde morei até os 20 anos. Depois que me formei em Jornalismo, vim tentar a vida em São Paulo. E a vida aqui é aquela loucura: você não tem tempo para fazer nada, ainda mais quando está em início de carreira e quer provar o seu valor. No meu primeiro emprego em São Paulo, eu trabalhava das onze da noite às sete da manhã. Tinha uma alimentação bem bagunçada: comia coxinha, miojo, sanduíche… Eu sei cozinhar, mas quando você chega em casa morta de cansaço a última coisa em que você vai pensar é em cozinhar.

Minha relação com o meu corpo nunca foi um assunto que paralisasse a minha vida. Lógico que eu tinha minhas encanações. Quando comecei a engordar, fui em nutricionista, médico, mas sempre fiz dieta de uma forma natural, com atividade física, reeducação alimentar. Em 2010, cheguei a tomar um remédio que uma médica indicou, fluoxetina, e odiei: perdi apetite, mas virei um zumbi, não tinha vontade de nada. Fiquei um mês tomando aquilo e depois falei para ela que iria parar. Não gosto de nada que me faça perder o controle do meu corpo.

Tive três indicações para cirurgia bariátrica, mas não quis de jeito nenhum. Minha ginecologista me falou: ‘Olha, Flávia, eu acho, sinceramente, que é uma mutilação. Se você quiser emagrecer, tenta de outro jeito, com dieta, alguma coisa, mas bariátrica não recomendo’. Já não estava querendo, depois dessa aí é que não fiz meses

Quando tinha 36 anos, coloquei aquele balão gástrico, com o qual você fica de seis a oito meses e depois tira. Cheguei a perder 20 quilos, mas dois anos depois recuperei tudo de volta. Porque essas coisas são todas temporárias, vão tratar de uma forma paliativa, não vão descobrir por que você engordou, tratar o psicológico… Tudo está ali para dar uma tapeada e depois você ficar o resto da vida se restringindo ou com algum problema. Tem gente que faz bariátrica e acaba viciada em outras coisas, a saúde fica abalada de outra forma. Em geral, essas coisas não são feitas pela saúde, são mais por estética. Não foi uma coisa que eu me arrependa de ter feito, mas na época eu gastei quase R$ 10 mil. O lado positivo é que eu tive um autoconhecimento do meu corpo que foi bom para mim na época, mas hoje em dia não faria de novo.

Cheguei a ficar uma semana num spa famoso em Sorocaba. Foi bom, um processo de autoconhecimento. Mas fiquei horrorizada com histórias que ouvia lá, de gente que já tinha feito bariátrica e depois engordava tudo de novo e voltava para lá, por exemplo. As pessoas estavam sempre vivendo em função de emagrecer, e aquilo me deixou muito encanada. E tinha umas histórias de pessoas em crise, que quando estavam com fome matavam ganso do lago para esquentar no aquecedor do quarto… Tem também a maior lenda dos spas, que eu soube que contam em todos, de que um cara que uma vez foi pego com um brigadeiro ou bala escondida e foi expulso, não me lembro bem por quê. Como ele era muito rico, filho de político, mandou fazer uma chuva de bombom Sonho de Valsa no spa, o povo ficou louco (risos). Então tinha muita história de sofrimento, das pessoas sempre estarem em busca de um emagrecimento que provavelmente nunca iria acontecer de forma definitiva. Aí passei a desencanar disso.

Mas, ao contrário do que as pessoas pensam, não é porque eu desencanei disso que eu estou largando o meu corpo. Todo ano, faço check-up. Alguns índices são muito bons para a minha idade, outros estão ruins e preciso melhorar. Estou em busca disso, como qualquer pessoa que hoje em dia vive numa cidade grande, que nem sempre consegue se alimentar direito. Não é uma coisa de: ‘Ah, ela está gorda, está morrendo’. Sou ativa, gosto de dançar, de fazer ioga, quando estou com tempo faço musculação. Não sou uma pessoa parada. Muito pelo contrário, muita gente fala para mim: ‘Flávia, eu não tenho nem metade do seu pique.’ Porque eu sempre trabalho bastante, gosto de viajar, de passear. Depois que, além de empresária do setor, eu virei ativista, meu objetivo é mostrar que a pessoa gorda é normal, como qualquer outra, e merece, acima de tudo, respeito, ser bem tratada em todos os lugares e ter todos os direitos assegurados, também. Falam muito de gordo, de saúde, e o gordo vai no médico é sacaneado, é maltratado. No mercado trabalho, não consegue emprego por ser gordo, como se isso fosse nossa única característica.

Nunca deixei de fazer as coisas que eu fazia por ter me tornado uma mulher gorda. Continuei usando muito biquíni, eu sempre gostei muito de ir à praia, por ter vivido entre Santos e o Guarujá, e sempre gostei de me vestir de uma forma diferente, porque gostava de rock e de usar camisetas de banda, roupas mais alternativas. Fui me sentir esquisita, excluída a partir do momento em que as pessoas passaram a me tratar mal por causa disso. Entrava nas lojas: ‘Aqui não tem nada para você, não tem nada do seu tamanho.’ Às vezes nem com palavras, só com olhares já entendia. Até em baladas, casas noturnas, as pessoas me olhavam e riam porque eu estava dançando, e tiravam sarro: ‘Olha aquela gorda ali!’. Ou então me xingavam na rua: ‘Sua baleia!’. De forma totalmente gratuita. E eu pensava: ‘Pô, eu não estou fazendo nada a essas pessoas!’.

Em 2009, fui convidada para ser editora de lifestyle de um portal jovem, o Vírgula, para falar sobre moda e estilo de vida. Quando a (jornalista) Claudia Assef me convidou, eu até estranhei: ‘Nossa, mas eu nunca escrevi sobre moda, por que isso?’. Ela: ‘Justamente por isso, quero um olhar menos contaminado sobre essa indústria para a gente falar sobre os jovens, para as pessoas de classe média, classe média baixa’. Topei e passei a falar de moda com uma linguagem mais popular e de acordo com a realidade que eu vivia também. Na época, estava começando a se falar em moda plus size no Brasil, estavam surgindo as blogueiras plus size, então comecei a chamá-las para participar de reunião de pauta lá, para saber o que elas queriam ver no site, e fui absorvendo essas demandas numa época em que ninguém falava nisso.

Fiquei dois anos no portal. Depois, em 2010, fui convidada para ser editora do site da Trip e da TPM. Também continuei com a mesma pegada, de falar em moda com uma maneira mais realista, tinha coluna sobre moda plus size, convidava blogueiras gordas para fazer look do dia, todos os tipos de mulheres com todos os tipos de corpos, falava sobre moda inclusiva, para mulheres com deficiência, sempre fui tentando falar do tema de forma mais democrática.

No final de 2012, eu quis começar a ter uma renda extra. Sempre fui muita coisa ao mesmo tempo: jornalista e DJ, assessora e produtora de balada, assessora de imprensa de banda ou de gravadora. Passei a sentir a necessidade de ter um negócio próprio. Mas qual? Nunca tive muita identificação com cozinha, nada assim. Na época da faculdade, vendia sanduíche natural, vendia cerveja no carnaval… fiz de tudo um pouco. Quando estava desempregada ou apertada, sempre me virei, de um jeito ou de outro. Comecei a trabalhar fixo com 16 anos e sempre fui muito ativa. Fiquei pensando no que podia fazer. O assunto plus size estava começando a esquentar. Pensei: ‘Vou revender biquínis plus size. Vou comprar na loja onde eu sempre comprava no Guarujá. Tenho R$ 500 e vou investir tudo. Mas só biquíni mesmo, porque quero que as mulheres queimem a barriga no verão’.

A ideia de focar nos biquínis surgiu de uma experiência em casa. É que, apesar de a minha família ter sempre cultivado muito minha autoestima e da minha irmã — nós somos três mulheres —, teve uma época que minha mãe ficou preocupada comigo e falou: ‘Flávia, você não está muito gordinha para usar biquíni? Por que não usa um maiô?’. Mas sem ser maldosa nem nada. Aí comprei um maiô. Na época, não havia esses bonitos que existem hoje, era um modelo bem antiquado. Fiquei usando mais ou menos um ano. Só que não não me sentia eu. Sempre fui do biquíni. Todas as modas eu usei: asa-delta, fio-dental, tomara-que-caia, flúor. Quando eu vi me ali de maiozão preto, pensei: ‘Putz, isso não tem nada a ver comigo’. Depois de um ano, eu me disse: ‘Nunca mais vou usar essa porcaria na vida, para tomar sol, entrar na piscina ou no mar’.

Além disso, desde que eu era adolescente, ia com a minha turma para a praia, em Santos ou no Guarujá. Era um grupo grande de meninas. E eu me lembro claramente, como se fosse hoje: eu tinha 16, 17 anos e as garotas já tinham aquela encanação com o corpo. Algumas amigas iam até o mar de canga, shortinho ou camiseta, ou então iam de tênis para a praia, porque tinham vergonha dos pés. Embora eu não tivesse a consciência de hoje, aquilo mexia muito comigo. Eu pensava: ‘Nossa, por que essas meninas estão aí, na flor da idade, se cobrindo com camisetão, com canga em vez de estar curtindo a vida?’.

Depois passei a ver meninas gordas com bermuda jeans e camiseta para entrar em mar, piscina. Aquilo sempre me deixou muito triste, porque eu acho que ninguém tem que se privar de nada por causa do tamanho do seu corpo. Embora eu tenha sido muito tímida quando era mais nova, eu sempre fui muito desinibida em relação a isso, usava biquíni, fio-dental, com 19 anos até em praia de nudismo eu fui. Sempre tive uma questão bem desencanada com o corpo. Corpo todo mundo tem, e todo mundo tem usar porque a gente só tem essa vida e tem que curtir. Então o biquíni foi essa primeira batalha que eu comprei. Queria que as mulheres gordas não se intimidassem, começassem a usar biquíni.

E aí foi muito bom, porque, na época, eu não tinha essa consciência do ativismo, de gordofobia, de pressão estética, não sabia nada disso. Sabia que eu era uma mulher gorda e tinha essas vivências, e essas necessidades e dificuldades, de não encontrar as coisas legais. Como as meninas gostavam dos biquínis que eu usava, achei que poderia dar certo.

Passei a vender no intervalo do trabalho, na hora do almoço, em salão de beleza, nos fins de semana, na minha casa, na casa das amigas, tipo sacoleira mesmo, ia me enfiando em tudo quanto é lugar com meu biquininho.

Chegou perto de dezembro, pensei: ‘Agora é Natal, vai ser a maior correria e eu não vou ter tempo de abrir lojinha, porque trabalho. Não tenho como cuidar de muita coisa ao mesmo tempo.’ Tive a ideia de fazer um bazar com algumas amigas de quem eu já consumia as roupas plus size. Arranjamos um lugar, um galpão no Bixiga, meio bar, meio galeria de arte, que existe até hoje. Fizemos essa primeira edição, foi em 8 de dezembro de 2012. Foram 120 pessoas. E eu fiquei tão feliz: ‘Nossa, que legal, quanta gente veio!’. Desde esse primeiro, já teve uma repercussão muito bacana, porque nunca tinha tido um bazar com essa proposta mais jovem, mais alternativa — na época era uma pegada bem mais alternativa, tipo um Mercado Mundo Mix —, aí bombou muito. Todas as bloguerias comentaram, várias foram, e aí começaram a me perguntar: ‘Quando é que você vai fazer de novo?’.

Então eu fui fazendo. No começo sem uma periodicidade definida, até que depois eu fixei: são quatro vezes por ano, uma a cada estação, em São Paulo. Conforme o Pop Plus foi crescendo, eu fui parando de vender os biquínis e foquei na produção do evento, na curadoria e na comunicação. Embora eu gostasse de fazer a pesquisa desses biquínis, de escolher e de atender as meninas, eu nunca fui muito boa de vendas, de controlar estoque, essas coisas. Acabei desencanando disso para me dedicar ao evento.

Em 2014, saí do site. E o meu negócio foi crescendo demais. Quando vi, já não estava dando conta sozinha. Fui procurar parceiros para me ajudar. No fim de 2015, encontrei dois sócios, que têm uma empresa de eventos, e foram eles que me ajudaram a impulsionar o mercado para tomar a proporção que ele tem hoje. Senão provavelmente ele seria uma coisa bem alternativa, bem indie até hoje. Porque, embora eu não tivesse um grande problema com o corpo, com a imagem, sempre tive uma questão com a autoestima profissional. Tinha dificuldade em cobrar direito as pessoas, pedir um aumento no trabalho — eu ficava meses com frio na barriga para fazer isso, sempre me achava inferior a todo mundo. Mesmo quando já estava começando o Pop Plus, tinha medo de cobrar as pessoas. Aí eles me empurraram para a frente: ‘Olha o que você criou, está movimentando, gerando de trabalho, de renda para todas essas marcas, essas famílias. Você tem que se valorizar também’. No início, eu cobrava tipo R$ 100 para cada estande. Lógico que tinha menos estrutura antes, mas fui aprendendo a me valorizar também, me aliando às pessoas certas, fazendo terapia, cursos, consultorias. Fui me cercando de todos os lados para poder melhorar cada vez mais meu trabalho.

Em 2016, eu tinha ido trabalhar como assessora de imprensa do Grupo Vegas. Em abril de 2017, fui demitida. O mercado de comunicação estava fraco e o Pop Plus já estava engrenando, eu vi que era a hora de entrar de cabeça, parar de tratar como uma atividade paralela e tratar como principal. Como sempre fiz muita coisa, para mim era ideal ter um trabalho fixo e um lado B. Mas, como o mercado de comunicação ficou ruim, pensei: ‘Estou com a faca e o queijo na mão.’ Aí passei a fazer consultoria, curso de empreendedorismo, de moda em tudo quanto é lugar para poder aperfeiçoar isso.

Por causa do Pop Plus, de todo esse crescimento que ele tem alcançado, eu fui passando a ser chamada para dar muita palestra, em universidade, empresa, evento de moda. Então eu também comecei a me aprofundar no lado ativista, lendo mais, para não falar besteira, para entender as necessidades das mulheres que são maiores do que eu, que vão sofrer mais preconceito ainda — porque eu tenho 120 kg atualmente, visto 52/54, mas as mulheres que vestem 60, por exemplo, são excluídas até dentro da moda plus size. Tanto as modelos como as clientes: não são todas as marcas que vão até o 60. Então acabei comprando essa briga dentro do próprio segmento, para incluir cada vez mais mulheres, porque não adianta você falar que faz um evento inclusivo e chega lá uma mulher que veste 60/62 e vai embora triste porque não conseguiu encontrar uma roupa. Isso aconteceu no Pop Plus, então a minha batalha pessoal é que a gente consiga incluir cada vez mais mulheres.

Estou com meu marido desde os 19, há quase 23 anos. Eu era magra, mas isso nunca foi uma questão para a gente. Ele sempre me respeitou de qualquer forma. Mas tenho vários relatos e casos de amigas sobre as dificuldades em relacionamentos por serem gordas. Embora mulher gorda atraia muito ódio, não falta desejo e procura dos homens. É muita hipocrisia. Tanto que a gente vê vários homens atrás de mulheres gordas, mas às vezes de uma forma mais fetichista: eles querem transar, uma noite só, às vezes têm vergonha de assumir um relacionamento frente à família ou os amigos. Não são poucos os casos de amigas, conhecidas e leitoras que eu recebo em relação a isso. Tem pouca representatividade na mídia e, quando tem, é da gordinha sensual, fogosa, erótica, ou da gorda louca para perder a virgindade que quer transar. Já vi amigos meus falando na minha frente, — mesmo eu sendo gorda, eles não tiveram nem vergonha: ‘Ah, quando você está na balada, às três da manhã, começam a chegar as gordinhas esquema, que você pega e elas vão fazer de tudo, vão transar..’. Porque, na cabeça desses idiotas, a mulher gorda é mais carente e, para poder segurar o parceiro, ela vai fazer de tudo. Eles têm desejo sexual, só que muitas vezes não são homens o suficiente para assumir um relacionamento com uma mulher gorda perante a sociedade. Isso é uma questão para muitas mulheres.

Eu felizmente nunca passei por uma situação de gordofobia médica, mas é algo que acontece com frequência com pessoas gordas. Não chego a considerar um médico que fale para você emagrecer ou fazer bariátrica como caso de gordofobia, porque eles já estão doutrinados a dizer isso. Eu considero quando a pessoa é maltratada no consultório somente por estar gorda. Por exemplo, quando fui fazer um artigo sobre o tema, ouvi relatos de uma mulher que queria engravidar e um médico disse: ‘Você está gorda igual a uma porca, desse jeito seu marido não vai querer transar com você’. Ou então: ‘Você está uma elefanta, assim você não vai passar nem na porta do consultório’.

Isso é muito grave, e as pessoas ficam tão chocadas, porque elas já consideram ser gordo algo errado, ser o cocô do cavalo bandido, que elas não conseguem reagir. Elas ficam mal, porque não estavam esperando ser tratadas de uma forma agressiva, mas não reagem na hora, não exigem seus direitos, não reclamam com o Conselho Regional de Medicina. Comecei a escrever sobre isso para conscientizar as mulheres de que não está certo, você tem que ser bem tratada de qualquer forma. Se você quiser emagrecer, isso é uma escolha sua. Lógico, você tem que estar ciente dos riscos. Você tem que ser tratada como um ser humano. Quando eles se formaram, juraram respeitar todas as pessoas. O paciente vai tratar de uma unha encravada ou dor de garganta e eles nem examinam direito, já falam: ‘Você tem que emagrecer’. Coisas que não têm nada a ver com peso.

Em todo Pop Plus, acontecem várias situações marcantes. O evento tem uma energia muito boa, chega a ser palpável. Todo mundo que vai, mesmo quem não é o público-alvo, fica impressionado: ‘Nossa, mas que astral bom desse lugar! Que energia boa!’. Porque é um momento em que as mulheres estão ali, se redescobrindo. Ficaram anos apagadas do mundo da moda, sem ter opção de escolha, aí elas chegam lá e piram: ‘Aqui tudo o que eu experimento cabe em mim, eu posso escolher de acordo com o meu estilo, não com o que coube só’. Tem muitas histórias que são emocionantes. Mulheres que depois de 20 anos voltaram a usar biquíni, ou nunca tinham usado, passaram a ter coragem para isso. Mulheres que passaram a usar blusa de alcinha ou de manga, que nunca tinham usado. Eu notei que as mulheres têm tanta encanação com tamanho de braço quanto com barriga, às vezes até mais com o braço. E isso é muito impressionante: várias preferem passar calor, usam manga comprida ou meia-manga, mas não vão usar blusa de alcinha de jeito nenhum porque têm vergonha do braço gordo. É um tabu ainda.

Tem a história que eu sempre conto. O Pop Plus já tinha uns dois anos. Uma menina, que tinha acho que uns 14 anos na época, quando experimentou um vestido que coube nela e ficou perfeito, começou a chorar, ficou bem emocionada, a mãe também chorou, as donas da loja choraram. Para mim, foi um momento decisivo, de virada, foi quando eu percebi que o Pop Plus era mais do que uma renda extra, e isso virou um propósito de vida. Porque, até então, eu estava tentando resolver um problema de uma forma prática: não tem roupa, vamos resolver. Mas aí fui percebendo que a questão da moda como aliada da autoestima é muito mais profunda do que a gente imagina. Eu pensei: ‘Poxa, se uma menina com 14 anos já está chorando…’. Lógico, foi um momento de emoção, de alegria, mas, para ela ter passado por isso, imagina quando estiver mais adulta. Ou outras mulheres mais velhas o que já não passaram. Então é uma coisa muito séria. Foi a partir desse instante que eu quis me aprofundar no assunto.

Antes de existir o Pop Plus, eu tinha três opções: as lojas de departamento, nas seções de grávida e masculina, e as lojas de senhoras. Comprei muita roupa em loja de senhora. Em algumas eu fuçava até achar algo que tinha mais a minha cara, ou então customizava, cortava, amarrava de uma forma diferente, para não ficar tão careta. Eu comprava sempre na mesma loja que a minha mãe, que é uma loja bem senhorinha e tem em todos os shoppings. É engraçado que agora isso se reverteu, minha mãe é que adora comprar roupa no Pop Plus. Então nem as senhoras mais estão querendo usar roupas de senhorinha. É muito legal ver como isso mudou nesses últimos seis anos.

O Pop Plus virou um evento bem grande. Pelas minhas pesquisas, hoje ele é o maior evento de moda plus size do mundo. Na última edição de 2018, nos dias 8 e 9 de dezembro, a gente conseguiu reunir 18 mil pessoas nos dois dias. Foram 54 mil pessoas nesse último ano. Estamos vendo cada vez mais as pessoas saindo do armário para comprar suas roupas do jeito que elas querem, do tamanho que elas querem e seguindo as tendências da moda, porque elas têm direito como toda mulher. A mulher gorda não tinha acesso às roupas a que as outras mulheres têm, e, quando tinha, era aquela coisa antiquada: o camisetão, o famoso ‘saco de batata’, as cores cinza e preto. E depois a gente foi para um extremo over, roupas só de oncinha, ou vermelho, tudo bordado, às vezes tudo numa coisa só. A moda plus size no começo era bem cafona.

E hoje em dia a gente tem todos os tipos de estilos, de tendências, bem alinhados com o que está nas vitrines de todos os shoppings. Não precisa mais ficar esperando 2021 para usar a cor do ano de 2019. Agora você tem a mesma tendência da moda convencional no plus size no Pop Plus, porque eu faço questão de trazer cada vez mais marcas que tenham esse olhar mais vanguarda para o setor. E, é claro, o Pop Plus acabou inspirando vários eventos em diversos estados e até o grande mercado, porque hoje em dia a gente vê mais lojas de departamento fazendo linha plus size com uma pegada mais jovem, e com certeza o Pop Plus influenciou nisso.

Eu me sinto muito feliz com o rumo que a minha vida e a minha carreira tomaram. Lógico que é uma batalha dura, por mais que hoje em dia eu já esteja mais acostumada, estruturada, ainda é muito difícil. Mas, já que eu comprei essa briga, vou em frente, de cabeça erguida, tentando me aperfeiçoar sempre, ouvir as outras mulheres que têm corpos diferentes de mim, outras necessidades. Estou sempre disposta a escutar, aprender. Mas fico muito feliz de ver que várias mulheres tiveram uma mudança de vida muito bacana depois de tudo isso que a gente conseguiu fazer com o Pop Plus, tornar a moda uma aliada, e não uma inimiga da autoestima.

Agora, eu trabalho para que, no futuro, daqui a uns 20 anos, não precise mais existir um evento especializado para mulheres gordas, para pessoas gordas. O ideal é que todas as lojas, todas as marcas tenham do PP ao EGG. É um trabalho que a gente tem que fazer agora de briga, de ativismo, de discussão, de ir atrás, de pesquisa, para que a moda seja cada vez mais democrática

Fonte: Marrye Clair