TEATRO: Hamlet, William Shakespeare (1603)

 

Talvez Shakespeare seja o maior referencial na perspectiva do homem moderno. Assim como Cervantes trabalha a perspectiva da loucura, um contraponto a razão, Shakespeare de uma maneira particular, agrega sua principal tragédia, “Hamlet”, o príncipe da Dinamarca que traz a sentimento de excesso de razão, fator que nos tornaria covardes.

 

Hamlet é uma narrativa teatral bem reconhecida, fala sobre a morte misteriosa do Rei da Dinamarca que supostamente foi assinado pelo seu irmão, no entanto, o próprio Hamlet, filho do rei e herdeiro do trono se torna melancólico por não aceitar a morte tão inesperada do pai. E no desenvolvimento da peça, a desconfiança acaba sendo observada sob a ótica do aparecimento do fantasma do pai.

 

O fantasma que aparece e revela a verdadeira história da sua morte, que não teria sido natural, mas sim provocada pelo seu próprio irmão que agora havia se tornado o rei da Dinamarca, se casando com a sua mãe.

 

– “Há algo de podre no reino da Dinamarca!”

 

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Todos os elementos, tanto naturais quanto sobrenaturais mostram, fundamentalmente, o desequilíbrio ético e moral que se manifesta sob a perspectiva da natureza, fato que representa um dos principais elementos das obras de Shakespeare. A relação entre o ético e o natural.

 

E vejamos a modernidade se apresentando de forma quase profética pelo assombro, quando a gente vê, por exemplo, no mundo de hoje quando as perspectivas das atitudes éticas dos homens repercutindo nos aspectos naturais. Por exemplo a questão do aquecimento global e a possibilidade de destruição do planeta.

 

Mas o principal fato que se enreda é história deste príncipe angustiado, Hamlet é fundamentalmente uma condicionante da verdade ética na moral e nos costumes daquela época, tendo em vista o caráter da psicologia de atuação do personagem. No entanto, Hamlet, uma vez consciente da verdade, passa por um processo de constatação buscando a certeza dos fatos, ele busca a convicção para fazer aquilo que tem de ser feito.

 

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O fantasma do pai aclama por vingança e também por justiça, até porque este mostra a Hamlet que o atual rei, é na verdade um rei injusto, pois chegou ao poder através de um ato criminoso. E Hamlet, o príncipe é aquele que deve retomar as coisas para os devidos lugares. Bem-dito Hamlet:

 

– ” Maldita sina que me fez nascer em tempos tão desordenados como os nossos. Tão desconcertado que cabe a mim concertá-lo!”

 

Esta questão trazida por Hamlet, é uma questão tão profunda, tão humana e tão atual, que estamos muitas vezes, reclamando dos tempos em que vivemos, fazendo uma referência filosófica que cabe a nós, fazer a nossa parte para concertá-lo. Quando chegamos ao meio da peça, Shakespeare, através e Hamlet, coloca a questão da seguinte forma, muito conhecida na literatura universal:

 

– “Ser ou não ser. Eis a questão (?).

 

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Esta é uma frase muito forte e impactante que se transforma em um dos monólogos mais recitados e recriados, não só ao longo da história do teatro, mas da literatura, habitando com absoluta clareza, o imaginário popular. Mas o que efetivamente, Shakespeare queria dizer através dessa grande dúvida. Na verdade, ao analisar a peça como um todo, na sua profundidade, percebemos que há uma relação bastante relativa entre a palavra “To be” e “To do”. “Fazer” e “Ser”, ou melhor, ser é fazer, fazer é ser, cabe a Hamlet concertar o que está desconcertado, e para concertar o que está desconcertado, Hamlet deve agir, mas necessariamente, é preciso pensar.

 

Agir de forma impetuosa, produz, efetivamente, efeitos maléficos. No decorrer da obra, Shakespeare nos dá um recado muito interessante:

 

– “Muitas vezes, pensar demais, pode ser prejudicial.”

 

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E no final deste importante monólogo, Hamlet reconhece que o excesso de razão nos faz covardes. Pois ao não fazer aquilo que devemos fazer, no momento em que devemos fazer, corremos o risco de fazer aquilo que não temos que fazer, no momento em que não devemos fazer.

 

E as consequências são nefastas. Hamlet teve vários momentos em que teve a oportunidade de fazer aquilo que tinha que fazer, isto é, realizar a vingança, mas o mesmo sempre deixava o momento oportuno passar, e ao deixar esse momento escapar, Hamlet torna-se escravos de suas próprias paixões, ou escravo das suas próprias indecisões, provocadas pelo excesso de razão, e acaba cometendo atos que não deveria cometer.

 

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Matando as pessoas inocentes, Hamlet vinga a morte do pai através da morte do tio, mas ele acaba se matando, ou levando à morte, inúmeros outros personagens, inclusive a mãe. Esta peça deixa uma mensagem muito clara que vai de encontro com o homem moderno: – ” Se a gente deixa de fazer, aquilo que devemos fazer, na hora em que devemos fazer, deixamos de ser.”

 

Este recado de Shakespeare através de Hamlet está fundamentado na perspectiva de vingança e a relação entre o ser e fazer/tempo. Somos aquilo que fazemos, não o que pensamos. Neste sentido há uma resposta, bastante interessante, há algo que estava emergindo naquela época, o pensamento moderno em que Shakespeare está escrevendo, é muito contemporâneo, como Descartes dizia:

 

– “Somos aquilo que pensamos. Penso, logo existo”.

 

Mas talvez Shakespeare esteja dando uma resposta dizendo:

 

– “Não basta pensar, é preciso agir.” O que nos torna humanos não são nossas ideias, mas fundamentalmente as nossas atitudes.

 

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