O Marido Ideal, Oscar Wilde (1895)

 

 

Nesta série estamos discutindo os clássicos para entender o mundo atual. Hoje vamos falar de uma comédia chamada: O marido ideal, uma obra de Oscar Wilde, que não é tão celebrada, mas que é fantástica. Importante refletir no decorrer da obra: – “o que faz a nossa vida valer a pena?”

 

O que faz com que a nossa vida tenha sentido? Em parte precisamos perceber que a gente é bem-sucedido, temos a sensação de que somos valorizados no mundo quando conquistamos as coisas, ser um bom profissional, ganhar dinheiro, aparecer na mídia, alcançar o status quo.

 

Quando se fala que o cartão de crédito é preferencial às pessoas e que todo mundo quer você. Mentira, todo mundo quer o cartão de crédito mesmo. Enquanto estiver com ele, as pessoas vão querer você, depois quando você não tiver mais o cartão, eles não o querem mais. E Oscar Wilde é muito sensível para isso, então ele escreve uma peça que é espetacularmente divertida, o público ri de fato, o tempo todo. Essa peça em inglês chama “A ideal Husband”.

 

A história sobre uma mulher que tem um marido que faz tudo para ela, absolutamente tudo e perfeito, este homem é visto como bom falante, charmoso, amoroso, carinhoso, bem-sucedido nos negócios, bem-visto na política, mas que não sabemos de suas origens, quando aparece uma mulher misteriosa.

 

Essa mulher vai chantageá-lo o tempo todo, porque ela sabe de um acontecimento da vida dele, sabe que ele só chegou aonde chegou, pois cometeu um crime na juventude. Ela fala: -“Se você não me der uma fortuna, eu vou contar tudo para a sua mulher. E ela vai saber quem homem você é.”

 

E o melhor amigo dele é um “bon vivant” preguiçoso, que não faz nada da vida, dorme até tarde, toma todas, um completo tolo. Um homem absolutamente inútil e é a esse amigo que ele vai recorrer, quando se ver ameaçado pela chantagista. A história vai continuar e vai acontecer que a mulher dele, de fato, fica sabendo tudo. Numa determinada ocasião, ela o põe para fora de casa, e diz:

 

– ” Olha, você era tudo para mim, tudo! O que havia de mais puro. O mundo era melhor na sua presença, sua existência. Um homem honesto. Mas agora tudo acabou, porque quem comete uma ação indigna é incapaz de qualquer ação indigna e eu não quero mais você. Quero você fora da minha vida!”

 

Neste momento, após dizer isso, ela expulsa ele de casa, aquele que seria o marido ideal. Aquele que é idealizado, aquele que não pode ser humano, o ideal. E o amigo que sempre foi um grande preguiçoso, vai tentar convencer, aos pouquinhos, que ela também fez muita coisa errada na vida, e que nem por isso, ela deixa de ter o seu valor. Em meio a trama, ele diz uma frase que é muito importante para a gente hoje, no mundo atual, este momento de desânimo generalizado.

 

Ele diz para ela: – “É preciso ter muita coragem para olhar o mundo nos olhos e ainda assim amá-lo, mas é isso que nos faz a grandeza.”

 

E a partir disso, o casal se reconcilia, e ela percebe que de fato, mesmo com todas aquelas fraquezas, ou por causa das fraquezas daquele homem, ele não deixava de ser o marido ideal. Porque eles de fato, se amavam. Este é o principal sentido das relações humanas, o ideal porque é ideal para mim. Perfeito para mim. E não ideal porque é idealizado pela sociedade.

 

 

O Oscar Wilde, em outras peças e nos seus contos, expressa uma crítica muito forte à lógica industrial, e a lógica do utilitarismo, que no século XIX, dominava a Inglaterra. Ele contrariava essas lógicas de que somos valiosos, na medida em quem somos bons, produtivos, eficientes e modernos. Caso contrário, seriamos um fardo para a sociedade e não merecemos viver. Mentira, para Oscar Wilde, isto não é a função da arte. A arte de viver está nas dimensões da falha, dos erros e das fragilidades humanas.

 

 

A partir disso, o autor revela que o ser humano é fraco mesmo. Muito frágil. Nós erramos, somos maldosos em algumas ocasiões, somos ingênuos em outras, mas isso não é o fim da história, este é o começo da história, e Wilde tem uma chave muito importante para o entendimento de que temos dificuldades em olhar uns para os outros com grandeza. Esta é uma peça maravilhosa que precisa ser vista por quem deseja entender o mundo atual.