O enfermeiro, Machado de Assis (1896)

O enfermeiro é um conto teórico de Machado de Assis publicado no livro: “Várias histórias” em 1896. A história é contada por um copista chamado Procópio José Gomes, um copiador de manuscritos de teologia de um Padre em Niterói, uma profissão periférica e não muito honrosa para o homem urbano burguês daquela época.

 

E ao longo da história, ele se depara com o surgimento de um emprego para ser o enfermeiro numa cidadezinha no interior do Rio de Janeiro, e quando chega na cidade, ele é advertido que o enfermo, na verdade, é um velho sádico e tirano que ninguém suporta, pois tratava todo mundo mal. O coronel Felisberto.

 

 

E ao logo da história a relação com ele é boa, mas aos poucos começa a conturbação e ele começa a ser maltado pelo velho, e a situação vai se agravando de uma tal forma até ser agredido pelo tirano,  um certo dia em que ele estava cuidando do doente começa a discussão, em um dado momento o conflito se intensifica de tal maneira que o doente joga um prato de mingau na cara do Procópio e numa crise de raiva, o enfermeiro se volta para estrangular o velho doente e ameaça a estrangula-lo até a morte (?)

 

E é quando ele segura a garganta dele, o doente morre, surge aí uma grande dúvida, não dá para saber se ele realmente morreu devido ao estrangulamento ou se ele teve uma síncope, e o enfermeiro fica desesperado, sentindo-se muita culpa, e quando ele volta, ele tem uma enorme surpresa, pois na verdade o velho que era rico deixou toda a herança para ele. E ele é beneficiado pelo suposto crime.

 

 

E neste sentido é interessante atentarmos ao fato de perceber e tentar entender os recursos narrativos de Machado de Assis, uma coisa que ele faz muito bem é mostrar para o leitor como o personagem vai racionalizando a possibilidade de assassinato que ele cometeu, tornando-se uma hipocrisia, e ele começa a pensar:

 

– “Ah! Mas afinal de contas ele estava doente! E ele deve ter morrido porque teve um infarto, bem, foi para o bem dele, naquele dado acontecimento, eu só tive uma reação que qualquer um teria. ”

 

E de fato ele começa a se convencer de que na verdade o salvou, é como se fosse anunciado ao leitor como:

 

– “Todo mundo acaba passando por esse processo. ”

 

Pela necessidade de interesse próprio aonde passamos a transformar a culpa em redenção. Mas que na verdade, pode ser o grande avesso da cena, provocar o incômodo:

 

– “Você transforma a culpa em redenção. Em salvação. ”

 

E nisto vamos encontrando cada vez mais razões para justificar o injustificável. Este é um dos contos teóricos mais complexos do Machado de Assis porque a partir da narrativa pretende-se provar uma teoria, e isto, talvez, seja a evidência de que:

 

– “Não existe nada mais importante no comportamento do homem urbano, burguês do que o interesse. ”

 

Ele fala num outro conto, “O espelho” que:

 

– “O homem é como duas metades de uma laranja: uma parte é a aparência e a outra é a essência.”

 

No entanto o que está estabelecido é que a metade da laranja que é a essência está submetida a outra metade que é a aparência, pois quando o enfermeiro está contando essa história, ele já está doente e morrendo. E ele está contando para um interlocutor desconhecido e a gente não sabe quem é, e ele está confessando este pecado de quando era jovem.

 

Realmente, confessando o pecado da sua juventude, e sobretudo antes da sua morte. Ele está pedindo a salvação do próprio pecado, ele está querendo é que tanto o interlocutor quanto o leitor possam o perdoar, e então ele não conta para dizer a verdade, e sim para conseguir diminuir a pena do seu castigo diante de Deus, pois talvez houvesse uma chance de remissão após o julgamento.