A comida pode ser sua melhor aliada na busca da saúde.

Sophie Deram.

13/03/2019 04h00

 

Há mais de 2 milênios, Hipócrates, considerado o pai da medicina já, supostamente, teria dito “Que seu remédio seja seu alimento, e que seu alimento seja seu remédio”.

 

Não sei ao certo quando foi que começamos a distorcer esse pensamento. O fato é que nos dias de hoje o que invadiu as prateleiras dos supermercados deixou de ser alimento e muito menos medicina… Estamos rodeados por produtos alimentícios (até o nome mudou). Alimentos ultra-processados em embalagens coloridas e chamativas (bem diferentes dos alimentos que encontramos na natureza) estão ao nosso redor e ao nosso alcance em prateleiras de supermercados…E o aumento no consumo desse tipo de produto cheio de aditivos químicos, gorduras, açúcares, sal, ou seja ricos em energia e pobres em nutrientes. Essa oferta cada vez maior,  trouxe consigo um aumento nos índices de doenças crônicas não transmissíveis.

 

Afinal, será que o aumento do consumo de alimentos ultra-processados e o aumento das estatísticas de doenças crônico-degenerativas é só uma coincidência ou ele tem algum fundamento? Com certeza não podemos concluir com tanta pressa.

 

Primeiro já tinha obesidade, câncer, diabetes tipo 2 e doenças cardiovasculares antes da indústria existir, segundo a população está envelhecendo e com isso aumenta o risco dessas doenças crônicas. Envelhecer é bom sim, mas o desafio é de envelhecer com saúde!

 

Industrialização e doenças crônicas

 

As últimas décadas foram marcadas por mudanças profundas nos alimentos devido aos avanços de tecnologias usadas no processamento de alimentos que resultaram em uma maior higienização, disponibilidade, acessibilidade e comercialização de alimentos processados. Isso trouxe algumas vantagens como praticidade na realidade de hoje, aumento do tempo de prateleira dos alimentos e redução nos preços.

 

Porém métodos cada vez mais sofisticados alteraram a estrutura, o conteúdo nutricional e até mesmo o sabor dos alimentos que podem conter muitos ingredientes cosméticos.

 

Nossa alimentação que há alguns anos era baseada em alimentos in-natura, mais integrais ou minimamente processados, com foco na comida caseira e a preparação de comida fresca está sendo substituída por embalagens que contém o produto já pronto.

 

Nossa alimentação que há alguns anos era baseada em alimentos in-natura, mais integrais ou minimamente processados, com foco na comida caseira e a preparação de comida fresca está sendo substituída por embalagens que contém o produto já pronto. É só esquentar no microondas…Isso tudo é muito prático e facilita a vida de muita gente, porém esses alimentos tendem a ser mais densos em energia, ricos em gorduras saturadas e trans, açúcar, sódio e aditivos químicos representados por letras e números. Basta ler rótulos presentes nas embalagens para confirmar isso.

 

Evidências consistentes têm indicado que comidas e bebidas ultra-processadas acabam tendo menos nutrientes importantes como fibras naturais, compostos bioativos e vitaminas (mesmo quando o rótulo indica que foram adicionados) do que alimentos minimamente processados.

 

Vários estudos realizados em várias partes do mundo (Estados Unidos, Canadá, Nova Zelândia, e Brasil) que avaliaram a ingestão individual de alimentos e despesas com alimentação, sugeriram que os alimentos ultra-processados contribuem com 25 a 50% da ingestão total de energia. Ou seja, o consumo de alimentos ultra-processados chega a ser a metade do que comemos diariamente. O Brasil se situa hoje na faixa dos 30% mais está em crescimento.

 

Esses alimentos, sofrem alterações durante o processo de industrialização, dando origem a substâncias como acrilamida, aminas heterocíclicas e hidrocarbonetos aromáticos policíclicos, apontadas como potencialmente prejudiciais à saúde. Precisamos também dar uma atenção maior às embalagens de plástico que podem passar substâncias indesejáveis para os alimentos e podem desregular nosso sistema endócrino, causando problemas metabólicos e de fertilidade.

 

Nosso corpo, infelizmente, não veio equipado para metabolizar essa sobrecarga de ingredientes e aditivos encontrados nos produtos alimentícios em detrimento de alimentos in natura.

 

Estamos cada vez mais doentes e a medicina não tem cura

 

As estatísticas sobre as doenças relacionadas ao estilo de vida, como obesidade, síndrome metabólica, diabetes tipo 2, alterações nos lipídios sanguíneos, hipertensão e até câncer aumentam todos os dias!

 

Ter um estilo de vida saudável, uma alimentação balanceada e diversificada, ser ativo, dormir melhor, beber menos álcool e não fumar são fatores modificáveis que deveriam ser considerado mais importantes na prevenção dessas doenças.

 

Segundo o Instituto Americano de Pesquisa contra o Câncer, aproximadamente um terço das neoplasias mais comuns em países desenvolvidos e em desenvolvimento poderiam ser evitadas por uma mudança no estilo de vida e nos hábitos alimentares.

 

Cada vez mais temos estudos associando o consumo de ultra-processados com aumento do risco dessas doenças.

 

Recentemente, por exemplo, um estudo analisando os hábitos alimentares de mais de 100 mil franceses associou o aumento no consumo de alimentos ultra-processados ao aumento do risco de desenvolvimento de vários tipos de câncer.

 

Ainda precisamos analisar esses dados com cautela, pois são estudos de observação e não de intervenção. Ou seja, eles não comprovam a causalidade. Precisamos de mais dados para apontar os alimentos ultra-processados como sendo os culpados, mas já temos o suficiente para usarmos com cautela; porém, o princípio de precaução é de diminuir o consumo.

 

O segredo da saúde está na simplicidade

 

As estatísticas estão aí para provar que a alimentação atual está adoecendo as pessoas. Estamos aqui falando não somente dos nutriente ingerimos, mas também do nosso comportamento alimentar. E um resgate ao ensinamento milenar de Hipócrates é, sem exagerar, vital!

 

Nos Estados Unidos, um novo programa desenvolvido para que pacientes recuperem sua saúde –   o programa Geisinger- criou a “Farmácia da Comida Fresca” que fornece frutas, vegetais e carnes. Além de receberem comida de verdade os pacientes aprendem a incorporar esses alimentos no seu cotidiano.

 

Segundo Dr. Jaewon Ryu, presidente do programa Geisinger em entrevista à revista Time, “Quando você prioriza a alimentação e ensina as pessoas a preparar refeições saudáveis, isso acaba sendo mais impactante do que o uso de medicação”. Esse projeto tem ajudado milhares de pessoas doentes a recuperar sua saúde usando o alimento como medicamento.

 

Praticidade X simplicidade

 

As estatísticas relacionadas ao consumo de alimentos ultra-processados assustam, eu sei. Mas como podemos melhorar o que comemos e ao mesmo tempo ter a praticidade que a evolução nas técnicas de processamento de alimentos no proporcionam? Todos os alimentos processados são ruins?

 

O segredo para evitar entrar nas estatísticas de doenças crônico-degenerativas é bem simples: comida de verdade! Esquecemos do poder dos alimentos in natura.

 

Eles não só nos dão energia mas nutrientes que podem ser tão eficazes como medicamentos. Melhorar os hábitos alimentares é possível! E é simples. Mas infelizmente requer um esforço maior que tomar uma pílula. Consumir mais alimentos in natura e cozinhar pode ser um grande aliado nesse processo!

 

Mas não precisa se desesperar! Os alimentos processados podem ser aliados na correria do dia-a-dia. Mas precisamos aprender a ler e entender os rótulos dos alimentos para comparar e escolher melhor os produtos que colocamos no nosso carrinho.

 

Uma boa dica é escolher aquele produto que tem menos ingredientes na sua composição. Outra informação importante é que os ingrediente são colocados no rótuloOrganização também é muito importante! Se não temos muito tempo para nos preocupar com o que vamos comer, algumas dicas simples podem ser uma mão na roda na hora da correria. Sempre que você cozinhar faça porções a mais e congele. Assim você tem sempre uma comidinha caseira no congelador e o esforço maior será aquecer no microondas (com a diferença de que quem cozinhou foi você que você sabe o que tem ali dentro).

 

No fim é a simplicidade, o resgate aos hábitos alimentares dos nossos avós, que pode ser a saída para essa epidemia de obesidade e doenças crônico degenerativas. Uma alimentação saudável previne e pode até ajudar no tratamento doenças!

 

Sim, o alimento pode sim ser seu medicamento! (mas não o único!)

 

E bon appétit!

 

Fonte: Blogosfera.UOL

 

 

 

 

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